Li no blog do
Cris Dias um post muito esclarecedor a respeito da “novidade” que as operadoras telefônicas estão querendo implantar agora: o limite mensal do download de dados, algo que pelo jeito a Telefônica já está armando (citei isso num
post anterior recente) para um futuro bem próximo. Devido à importância de se entender o que está acontecendo, reproduzo o post:
Giro
Voltando à história de se cobrar os usuários de Internet dedicada por banda consumida.
Vésper lança novos planos de acesso à internet
A Vésper está com dois novos planos para o serviço de acesso sem fio à internet em banda larga Giro. Batizados de Giro 1000 e Giro 2000, o primeiro é destinado a internautas que usam a conexão rápida primordialmente para navegar, ler e-mails e que baixam arquivos moderadamente, enquanto o Giro 2000 é voltado àqueles que fazem um uso mais intensivo como baixar arquivos de músicas, trailers de filmes, softwares e outros conteúdos multimídia.
A assinatura básica mensal do Giro 1000 é de R$ 49,90 e o consumo mensal — a soma dos dados recebidos (download) e enviados (upload) para a internet — incluído no pacote é de até 1.000 MB. Já a assinatura básica do Giro 2000 custa R$ 69,90 por mês e o consumo mensal é de até 2.000 MB.
A cobrança por uso, segundo Alexandre Alvim, diretor de desenvolvimento de negócios 3G da Vésper, é comum em produtos que envolvem consumo de recursos, tais como eletricidade, água e gás. No modelo atual de cobrança de serviços banda larga, ele observa a maioria dos usuários, que usa moderadamente, acaba pagando mais para subsidiar uma minoria que usa muito. “É como se o cliente pagasse o mesmo valor de quem deixa um aquecedor elétrico ligado o dia inteiro, enquanto ele consome energia numa escala bem menor, apenas de manhã e à noite”, compara Alvim.
Assim como os políticos, os marketeiros têm o poder de fazer você achar que uma coisa ruim é a melhor coisa que podia lhe ter acontecido. Como costuma dizer um amigo meu canadense: “por favor, não mija no meu ouvido e diz que é chuva”.
Me ocorreu que as empresas brasileiras adoram comparar as coisas aos EUA quando lhes interessa. “O governo devia [qualquer coisa que benificie as empresas]
. Nos EUA é assim.” Mas na hora de favorecer o cliente eles esquecem.
Então vou lembrar: caro Alex Alvim, nos EUA a ligação telefônica local é ilimitada e não há nenhum provedor cobrando por hora usada ou banda consumida. Como já bem disseram aqui nos comentários, não quero voltar ao tempo do dial-up onde eu tinha que ficar contando as horas para não estourar meu limite mensal.
Eu tenho Internet dedicada por dois motivos: preciso estar conectado o tempo todo para poder falar com meus clientes na hora. Também gosto, é claro, de baixar toneladas de arquivos da rede. Não só coisas piratas
como mp3. Eu estou sempre no site de trailers da Apple e baixando demos e trailers de jogos. Adoro sites de filme com seus flash-bangs que avisam de cara “usuários de banda estreita, nem pensem em clicar aqui”.
Então, francamente, se meu provedor começar a me cobrar por banda eu talvez não volte para o dial-up (por causa do primeiro motivo) mas basicamente todo mundo que usa banda larga o faz justamente por poder baixar arquivos sem se preocupar com o tempo de transferência. Se um “taxímetro” voltar a funcionar eu certamente vou passar para o plano mínimo (que pelos números da Vesper e Telefônica é aproximadamente um terço do que eu pago hoje, ou seja, prejuízo para eles) e um abraço.
Ainda no papo “nos EUA é assim”, lá o governo mandou as empresas de telefonia abrirem sua rede para que outros provedores pudessem vender o serviço de DSL. Isso não resolve totalmente o problema do monopólio mas é bem melhor do que o cala-boca inventado no Brasil onde os provedores obrigam o usuário a se “autenticar” num provedor de “acesso” antes de poder navegar. O provedor cria um site de “conteúdo de valor agregado” (ou seja, um monte de trailer de filme, rádios online, etc. — que não necessariamente foram criados por eles — para justificar a banda larga, dados os quais teremos que pagar em breve para baixar, nunca é demais lembrar) e ganha uma fatia do bolo. Em troca não se mete no negócio de prover o acesso em si, deixando o caminho livre para a operadora de telefonia cobrar como e quanto quiser de quem precisa estar conectado o dia todo. Eu, por exemplo, sou “assinante” do globo.com mas os meus pacotinhos IP nunca passam pelos servidores e roteadores do plim-plim. Oh sim, eu tenho direito ao tal do Globo Media Center (que eu até acho legal, comparado a outros “provedores banda larga” que não oferecem nada) mas se eu vou ter que pagar a mais pelos bytes consumidos pelos videos do TV Pirata eu prefiro não baixar, obrigado.
E, finalmente, por favor não me venha com esse papo de que uma pessoa que não baixa tantos arquivos está subsidiando
os meus downloads. Eu pago o equivalente a US$ 50 por mês pelo meu acesso à Internet, eu acho que é dinheiro suficiente para precisar de subsídios.
O pensamento marketeiro-gerencial funciona assim: Fulaninho da Silva baixa trocentos gigas em mp3 e divx por mês. Vamos colocar um limite de download de 1gb. Trocentos-menos-um a gente cobra por fora. Vamos ficar ricos.
Quando o uso cair porque o Fulaninho não quer pagar o excesso de banda eles vão chorar dizendo que o mercado brasileiro não está atendendo às expectativas e por isso precisam aumentar o preço. Aliás eles não vão chorar nada, vão simplesmente aumentar já que não há regulamentação por parte da Anatel.
É claro que a coisa é inevitável. Até o fim do ano todas as empresas de banda larga (que, por sinal, vivem reclamando que não estão conseguindo vendas o suficiente) vão migrar te mandando um “cala boca e paga”. Provavelmente os usuários atuais serão afetados, já que o contrato atual tem uma cláusula que diz que a prestadora pode mudar o valor e o cálculo da cobrança quando quiserem. Não gostou? Cancela a conta e vai pro concorrente. Opa, mas que concorrente? Não tem.
O que eu tenho a dizer sobre isto tudo:
Problema 1: a legislação brasileira no que diz respeito ao acesso à Internet está definitivamente antiquada, pelo simples motivo que para ela só existiria acesso à Internet via dial-up, algo que obviamente a realidade dos fatos tratou de suplantar;
Problema 2: nos planos da reforma do ministro Sérgio Motta as companhias telefônicas entrariam gradativamente num sistema de competição plena, mas o poderoso lobby destas empresas privatizadas em Brasília faz com que esta abertura seja adiada para uma data cada vez mais distante, segundo elas por ainda “não estariam em condições ideiais para um mercado totalmente aberto”.
E assim vamos seguindo à mercê das vontades de oligopólios…